Ele desaguava. Vi de relance seus olhos inchados e seu rosto vermelho. Com as mãos na testa, os cotovelos sobre os joelhos, sentado no meio-fio daquela ruazinha de paralelepípedos, parecia que seu desespero podia ser compartilhado com os poucos que passavam.
Confesso que fiquei um pouco atordoada. Apesar de todas as discussões sobre as complicadas relações de gênero, estava chocada com aquela cena cujo protagonista era um homem. Levei alguns segundos ainda para voltar a dar conta de mim.
A curiosidade e uma empatia inexplicável com aquele rapaz, agora, quase desconhecido me fez entrar num café da esquina, pedir uma água e sentar na esperança de que sua tempestade passasse.
As lágrimas, que se concentravam no queixo, formavam pequenas manchas escuras em sua calça.
Depois de algum tempo, entrelaçou os dedos sobre a nuca, soluçou mais algumas vezes e respirou fundo. Levantou a cabeça e passou a olhar para um ponto indefinível, do outro lado da rua.
Paguei minha água e levei a garrafa comigo. Aproximei-me dele e, como se quisesse sentar sobre os calcanhares, abaxei-me. Quando virou o rosto, percebendo minha presença, ofereci-lhe a água. Ele contraiu os lábios e piscou longamente. Pegou minha garrafa, levantou-se e esperou que eu fizesse o mesmo. Enfiou a mão no bolso e me estendeu um papel amarrotado.
- Livra-se dele pra mim?
Profundamente tocada pela situação, apoderei-me do que ele desprezava sem encontrar palavra melhor que o silêncio. Ele me virou as costas e partiu.
Percebi que o que tinha nas mãos era, na verdade, um envelope.
"Para a misteriosa Ana."
Outubro 25, 2009
enigma
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Helena Máximo
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11:14 AM
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Setembro 25, 2009
si bemol
Teve o privilégio de conhecer o piano muito cedo. Ninguém precisou convencê-lo a frequentar aulas de música. O prazer com que tomava as lições, repetia os exercícios, ouvia as histórias de grandes compositores enchia a professora daquela esperança tola que instrumentistas frustrados mantêm sobre seus filhos ou pupilos.
E, certamente, não era ilusão. O pequeno tinha facilidade e vontade de aprender os mistérios daquelas sequências de frequências. Como toda criança, perdia-se no tempo. Durante os fins de semana junto aos primos, as partituras e os pedaços de marfim descobertos juntavam pó. Mas, nas poucas horas antes da aula, lembrava-se de estudar e tentava reaver a semana mal aproveitada. Mesmo assim, conseguia surpreender a tutora.
O fato é que sempre estabeleceu uma comunicação muito franca entre as melodias que aprendia e que tinha no meio do peito. Era o que fazia com que nem umas nem outro permanecessem os mesmos. Deixava-se tocar pela música e fazia-se interpretar através dela.
Mas as inconstâncias da adolescência fizeram-no abandonar os estudos.
Poucos anos depois - largado o piano -, foi presenteado com um imenso incentivo: um violino. Desdobrou-se para conseguir dar conta das expectativas e surpreendeu-se quando se descobriu apaixonado. E a história se repetiu.
Diante do fim do período colegial, o futuro que estava desenhado para ele era a faculdade. Ousou pensar em música e, por mil e uma razões, só ousou pensar. Adquiriu, então, uma vida dupla. A faculdade acumulou-lhe tarefas.
De forma contraditória, a mudança de cidade lhe trouxe crescimento musical. Começou a ter aula com um dos melhores professores, passou na seleção para um grande conservatório, investiu nas aulas de teoria, ingressou na orquestra universitária, enamorou-se de uma flautista.
O fim da faculdade expôs novamente o problema. Mas insistiu em morar fora até que terminasse o curso básico de música. Quase um ano depois, não pôde e nem quis recusar uma boa oferta de trabalho. Voltou para casa e sonhou poder continuar a trilhar dois caminhos. Não conseguiu.
A partir daí, as poucas vezes que foi a concertos viu a orquestra com o olhar turvo. O precioso instrumento, dolorosamente inesquecido, sofria calado as ações do tempo esperando ansioso o momento de voltar a vibrar.
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Helena Máximo
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11:32 PM
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Agosto 13, 2009
o mesmo
Sabes aquele momento em que os olhos se águam levemente de desejo?
Acontece ainda comigo.
A água na boca de excitação?
Está aqui, agora.
Sabes aquele calor que aparece repentinamente no corpo, queimando um pouco do bom senso e fazendo me entregar sem pensar?
Ainda sinto, repetidas vezes.
Continuo suspirando ao toque da tua mão no meu rosto e arrepiando quando ela desce lentamente.
Reações nada extraordinárias. Não há situação mais comum no mundo dos homens e das mulheres. O que me marca é a recorrência... com você.
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Helena Máximo
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8:15 AM
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Julho 19, 2009
triiiiim
Comecei a abrir os olhos e os fechei novamente. Perceber que estou na cama nunca foi impedimento para que continuasse assistindo aos meus sonhos. Acabam sendo momentos um pouco surreais os que me permitem ser telespectadora de mim mesma em situações um tanto quanto inusitadas. Mas, uma hora, o sonho acaba, como um filme gravado pela metade, e meus olhos se abrem definitivamente.
Assustei-me com o horário. Hibernei. Séculos se passaram e eu não me dei conta. Vejo esse meu quarto,... minhas palavras trazem as cenas, de momentos antes, com Morfeu em minha memória. Esfregar as mãos sobre o rosto sempre parece ajeitar a casa.
Vou abrir a janela, tomar um pouco d'água e volto. Eu espero.
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Helena Máximo
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5:41 AM
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Maio 29, 2008
um
Foi pega de surpresa naquela noite. É provável que nunca mais tivesse um momento tão marcante na frente de uma bilheteria de cinema. Ainda conseguia lembrar de como sentiu o beijo farto e quente em sua bochecha. Podia ver por trás das pálpebras os olhos verdes cheios de surpresa.
Coincidências incríveis essas que nos apresentam ao nosso futuro. Ela não fazia idéia.
Não foi difícil acomodar-se junto a seus amigos deixando um lugar vago ao seu lado. E não foi preciso comunicar a ninguém de quem era aquele espaço. Estranho e sublime magnetismo. Ao lembrar daqueles minutos, reconstituía o sorriso preso pelos lábios ao perceber que o corpo dele respondia como um espelho aos movimentos de seu corpo, no início da sessão.
Pôde libertar os lábios quando, durante os trailers, ele comentou sobre o tapa-olho de Tom Cruise. Mas o sorriso largo reagia menos à piada e mais à toda aquela redoma de curiosidade, satisfação e fascínio que se instalou entre aquelas duas cadeiras.
"O amor nos tempos do cólera".
Quatro pessoas paradas no estacionamento e um momento de silêncio. Curto... quase imperceptível, mas ela compreendeu aqueles segundos como saturados de significado. Ele se despediu dela por último com aquele mesmo beijo único: "muito prazer em conhecê-la".
Nunca se sabe como plantar nós no peito. Só se sabe quando eles vingam.
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Helena Máximo
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2:48 PM
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Março 12, 2008
sonho
O dia no colégio tinha sido chato. Aulas de matemática são bacanas quando o assunto é compreensível. As matrizes sempre o pegavam pelo pé. A amiga havia faltado.
Saiu daquela muvuca na porta da escola com um ar meio pesado. O dia estava diferente dos normais, sempre marcados pelo sorriso maroto no rosto. Despediu-se rapidamente dos amigos, não estendeu nenhuma conversa.
Desistiu de pegar o ônibus, preferiu andar. Foi subindo a ladeira da rua comprida que daria na sua casa. Ele gostava do esforço extra nas pernas.
De repente, o céu fechou. A ventania chegou rápido arrancando muitas folhas secas das árvores.
O garoto já foi se preparando para a tempestade. Da mochila que carregava com as duas mãos segurando as alças nos ombros tirou o guarda-chuva. Mais uns cinco passos e a água caiu. Muita. Tanta, que ele resolveu esperar a crise mais forte passar debaixo da marquise da padaria.
Fez um pequeno esconderijo: sentou na soleira da entrada, colocou o guarda-chuva na sua frente e se encolheu no abrigo improvisado. Depois de uns 10 minutos, o toró virou chuvisco e o menino retomou seu rumo.
Chegou no topo da ladeira e percebeu quanta água tinha caído. Corredeiras se formaram entre o meio-fio e a rua asfaltada. Começou a saltar poças, transpor córregos. Mas não demorou muito para perceber que não fugiria das águas que corriam cada vez mais depressa na descida.
Então lembrou das histórias de que mais gostava, dos heróis preferidos e virou o guarda-chuva. Pousou-o sobre uma das corredeiras e sentou na parte interna, envolvendo a estrutura metálica com as pernas. Usou o cabo como manche. Assim desceu as cinco quadras ladeira abaixo. Como numa aventura dos quadrinhos que sempre lia.
Rapidamente chegou em casa, mas com o guarda-chuva destruído e as roupas encharcadas.
Assim, a manhã que havia terminado desanimadora, transformou-se num dia delicioso e único. Depois da preocupação e do carinho maternos, um banho quente e um almoço com banana frita e farofa, deitou no sofá sentindo a brisa fresca vinda da janela. Puxou uma colcha, agarrou uma almofada e dormiu.
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Helena Máximo
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8:33 PM
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Fevereiro 26, 2008
exílio
Eu decidi sim. Resolvi me afastar mais uma vez. E quer saber?! Arrependimento bateu à minha porta. Bateu forte, dolorido. Rasgou meu coração várias vezes, desde que cheguei aqui.
Rasgar é um verbo perfeito para o acontecido, aliás. Nunca havia sentido isso com tamanha nitidez.
Chega uma hora em que tua alma te pede para priorizar a felicidade. E eu odeio o mercado por isso. O tal mercado de trabalho. Não fosse por ele, eu provavelmente não estaria aqui. Mas não é culpa dele, é claro. A única responsabilidade é minha e vou assumi-la, mesmo doendo tanto o meu coração. Mesmo querendo tanto a minha pele a pele dele. Mesmo sem poder ver minha família a hora em que eu bem entender.
O sol está brilhando lá fora. Eu vou atender ao chamado dele daqui a pouco. Logo depois que as lágrimas secarem. Antes do meu estômago me dizer chega. Assim que eu juntar os pedacinhos que estão nessa cama.
Pode até parecer impossível, mas eu consigo.
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Helena Máximo
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9:15 AM
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